Dirceu convoca estudantes à ‘batalha nas ruas’

Realiza-se no Rio o 16º Congresso Nacional da União da Juventude Socialista, entidade estudantil vinculada ao PCdoB. Começou na quinta e termina neste domingo (10). Na véspera do encerramento, discursou no evento um efervescente José Dirceu.

 

A proximidade do julgamento do processo do mensalão parece tê-lo deixado inquieto. Algo subiu-lhe à cabeça. O companheiro virou dois: ele e o seu personagem. Dirceu como que pediu socorro:

 

“Todos sabem que este julgamento é uma batalha política. E essa batalha deve ser travada nas ruas também porque senão a gente só vai ouvir uma voz, a voz pedindo a condenação, mesmo sem provas. É a voz do monopólio da mídia. Eu preciso do apoio de vocês.” Evocando o seu passado de líder estudantil, acrescentou:

 

“Não podemos deixar que este processo se transforme no julgamento da nossa geração. Por isso, peço a vocês, hoje aqui, fiquem vigilantes. Não permitam julgamento político. Não permitam julgamentos fora dos autos. A única coisa que nós pedimos é o julgamento nos autos e que a Justiça cumpra o seu papel.”

 

Posou de vítima: “Eu tenho que provar a minha inocência. Eu deveria ter a presunção da inocência. Mas sou eu que tenho de provar. Me lincharam, me condenaram. Se eu estou aqui hoje de pé é graças a vocês… Mas agora é a batalha final. É a reta final. Eu quero este julgamento. Quero olhar nos olhos daqueles que me acusaram e me lincharam esses anos todos.”

 

Elegeu a imprensa como seu algoz: “Estamos travando uma batalha contra quem? Contra a oposição? Não. São partidos que foram derrotados em duas eleições presidenciais. Estamos enfrentando o poder da mídia, do monopólio dos veículos de comunicação.”

 

Cada escândalo tem sua fatalidade própria. A excentricidade do caso do mensalão foi a corrupção acéfala, a máfia sem capo. Lula ‘Não Sabia de Nadinha’ da Silva reivindica o papel de cego. E José Dirceu, apontado pela Procuradoria da República como “chefe da quadrilha”, pede que o vejam como um antilíder.

 

No tempo em que a política brasileira fazia sentido, Deus era Deus, o diabo era diabo, o PT era PT, o Delúbio Soares era pau-mandado, o Lula era Todo-Poderoso e o Dirceu era protagonista nato. Hoje, a nitidez perdeu sua função. Nada é o que parece. Dirceu, por exemplo, vende-se como uma espécie de sub-Delúbio.

 

À procura de solidariedade, o ex-líder arrasta para o banco dos réus gente que nada teve a ver com a encrenca. Roga à rapaziada que não permita que “processo se transforme no julgamento da nossa geração.” Nas páginas do livro ‘A Luta Contra a Ditadura’, Dirceu falou sobre sua “geração”, hoje já entrada em anos. Vale a pena ouvir esse Dirceu do livro:

 

“É difícil reproduzir o que foi o espírito de 68, mas posso dizer que havia uma poderosa força simbólica impulsionando a juventude […]. O mundo parecia estar explodindo. Na política, no comportamento, nas artes, na maneira de viver e de encarar a vida, tudo precisava ser virado pelo avesso. Para nós, o movimento estudantil era um verdadeiro assalto aos céus.”

 

No céu do poder, o PT roubou a cena com uma indecência que virou o sonho do avesso. Protagonista da vitoriosa campanhas e do primeiro reinado de Lula, Dirceu tenta agora cavar na enciclopédia um verbete de figurante. É um inocente culpado. Ou um culpado inocente. Nada a ver com aquele ego empinado de outrora, colecionador de façanhas inauditas.

 

É como se, pardal de si mesmo, Dirceu se esforçasse para sujar, com desenvoltura dialética, a testa da estátua de bronze de que sempre se julgou merecedor. Em litígio com o personagem que criou, o ex-líder autoconverte-se em pobre-diabo. E tenta provar que aquele Dirceu que se revelara vocacionado para o comando desde a primeira mamada morreu. Pior: nunca existiu.

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