‘Vou morder a canela dos adversários’, diz Lula

 

 

Lula repete em São Paulo, com Fernando Haddad, a fórmula que utilizou nacionalmente com Dilma Rousseff. Numa fase em que o pupilo ainda não tem vida política própria, o patrono empresta-lhe a voz e se dispõe a doar-lhe as pernas. Dá-se ao luxo de escolher o adversário. Antevê para 2012 uma polarização com o tucano José Serra, o mesmo rival de 2010.

 

Na noite passada, em encontro com o PCdoB, que aderira a Haddad horas antes, Lula como que chamou a briga para si: “Vou me dedicar à campanha de São Paulo. Vou pra periferia fazer comício, vou fazer caminhada, vou gravar programa de televisão, de rádio. Se for necessário, morderei a canela dos adversários para que o Fernando Haddad possa ser o prefeito.”

 

E quanto à saúde? Lula soou otimista. “A partir de julho ou agosto eu já vou estar com a garganta boa”, disse. “Já recuperei 70% de mobilidade na minha perna esquerda. Logo, logo estarei batendo falta e fazendo gol como o Romarinho [do Corinthians] fez no Palmeiras ontem.”

 

Lula fez comparações explícitas de Haddad com Dilma. Não parece impressionado com a momentânea desvantagem retratada nas sondagens eleitorais. Ao contrário, faz troça. “Não sei se vocês perceberam que, nas pesquisas, o Serra tá patinando. Eu acho que jogaram óleo na pista de patins dele. E ele vai perceber que foi um equívoco [ouvir] quem o convenceu a ser candidato a prefeito.”

 

Aproveitou para mordiscar o calcanhar de Serra: “O povo de São Paulo precisa lembrar que ele já foi eleito uma vez e, ao invés de governar, o bichinho ficou um ano e quatro meses no mandato e saiu. Ele não pegou nem a segunda enchente e já correu.”

 

O desafio da coligação petista, disse Lula, é ajustar o discurso para atrair a parcela do eleitorado paulistano que resiste em votar no PT e em aliados ditos de esquerda, como o PCdoB e o PSB. Gente que, por alguma razão, “vota no Tiririca.” Não mencionou o nome do neo-aliado Paulo Maluf, mas soou como se quisesse justificar a parceria inusitada.

 

Escaldado pela derrota de 2010, Serra parece ter farejado a tática de Lula. No domingo (24), ao discursar na convenção em que foi confirmado como candidato do PSDB, o tucano absteve-se de criticar Lula. Cuidou de concentrar suas baterias em Haddad. “Experiência é virtude”, disse, contrapondo-se à bandeira do “novo” desfraldada pelos marqueteiros do antagonista.

 

E Lula: “Estou vendo o nosso adversário dizer que a competência vai vencer o novo. Portanto, meu filho [Haddad], você já ganhou, porque competência ali não tem.” Como se vê, a exemplo do que fizera na sucessão presidencial, Lula joga sua biografia na disputa paulistana.

 

Já prevaleceu sobre Serra em 2002 e 2010. Batendo-o uma terceira vez, pode sepultar-lhe as ambições futuras. O objetivo de Lula é, porém, mais ambicioso. Deseja derrotar o tucanato em sua principal cidadela. Resta saber se vai conseguir seduzir o pedaço do eleitorado de São Paulo que torce o nariz para o petismo, condenando-o ao cercadinho dos 30%.

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