PMDB consolida vocação de ‘força’ subalterna

AngeliPMDBMonstro

Partido político que só ambiciona o poder erra o alvo. Partido que não ambiciona o poder vira alvo. O PMDB encaixa-se no segundo tipo. É prisioneiro de um paradoxo: maior partido do país, escolheu ser subalterno. Há quase duas décadas que não lança um candidato à Presidência da República. E não esboça o mais remoto interesse em construir uma candidatura.

 

Que ideias defende o PMDB? O partido é a favor de tudo e visceralmente contra qualquer coisa. Desde que ganhe cargos e verbas em troca. Que pretende o PMDB? Após reconduzir Michel Temer ao comando da sua federação de lobbies, a legenda planeja desperdiçar os próximos 20 meses guerreando consigo mesma.

 

Um pedaço lutará para se manter como apêndice do projeto reeleitoral de Dilma Rousseff. Outro naco tentará encostar um puxadinho nas pretensões presidenciais de Eduardo Campos, o emergente do PSB. Entre manter o status quo e trocar o status sem mexer no quo, o PMDB pode optar pelos dois caminhos. Nessa hipótese, chegará a 2014 exibindo sua face mais conhecida: a rachadura.

 

No momento, o PMDB atravessa uma quadra inusitada. Ocupa três poltronas na linha sucessória –já dispunha da vice-presidência da República, e acaba de amealhar as presidências do Senado e da Câmara. A despeito disso, a maioria dos representantes do PMDB no Legislativo acha que manda pouco e influi quase nada no governo de Dilma Rousseff.

 

Nunca foi tão fácil reconhecer um pemedebista em qualquer roda do Congresso. É o que está falando mal dos caciques do PMDB. A tribo dos pemedebês se deu conta de que era feliz sob Lula e não sabia. Sem ter o vice, controlava seis pastas de alto valor político-econômico.

 

Sob Dilma, o PMDB foi empurrado para a periferia da Esplanada e está quase exigindo de Temer um teste de DNA. Receia estar lidando com um sósia a serviço de Dilma. Acusam-o de não brigar pela ampliação dos “espaços” do partido no governo. Curiosamente, Temer está onde está justamente por não ser de briga.

 

Expressa-se em português higienizado, sem nomes feios. Tem uma dificuldade quase fonoaudiológica de elevar a voz. É lhano nos modos e cerimonioso no trato. Todas essas características, mais as roldanas que traz implantadas na cintura, fizeram de Temer o porta-voz da frágil unidade que vigora no PMDB. Foi como líder partidário, não como líder popular, que ele chegou à vice-presidência.

 

Embora fosse deputado federal desde 1987, Temer elegera-se com as próprias pernas apenas em 1995. Nas duas eleições anteriores –1986 e 1990— seus votos não lhe haviam rendido senão a suplência. Fora à Câmara porque os titulares deixaram os cargos.

 

Em 2006, ano de sua última eleição para deputado, Temer e seus cerca de 99 mil votos só chegaram à Câmara com o socorro do chamado quociente eleitoral, índice que contabiliza sobras das urnas da coligação partidária. Temer esteve na bica de dar adeus a Brasília. Nesse contexto, o vice terá pouco a agregar ao governo da titular se a maioria do PMDB deixar de enxergar nele um canal de escoamento das demanda$.

 

Respira-se nas bancadas do PMDB no Legislativo uma atmosfera conhecida. Sabendo que Dilma prepara-se para “ajustar” o ministério, os parlamentares do PMDB pedem, eles reivindicam, eles exigem. É a velha tática do ‘levanta-que-eu-corto’. Recusando-se a saciar os apetites, Dilma logo receberá o troco. Quando ela der por si, os votos do PMDB já estarão gritando ‘NÃO’ no painel eletrônico.

 

Empurrada por Lula, Dilma faz um inventário das “demandas”. Não parece disposta a entregar tudo. Porém, a história recente demonstra que ignorar o PMDB pode não ser bom negócio. No Brasil pós-militares, sempre que um presidente negligenciou o PMDB se deu mal. Bem alimentada, a agremiação fornece estabilidade congressual. Submetida a dietas forçadas, a legenda desestabiliza o que vê pela frente.

 

Sob José Sarney, o ex-apoiador da ditadura que se abrigou no PMDB para tornar-se vice de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães funcionou como uma espécie de presidente paralelo. Deu as cartas. Na sucessão de 1989, Ulysses tentou a sorte como presidenciável. Amargou um vexatório sexto lugar. Mandou dizer a Lula, por meio de um amigo comum, que bastaria um telefonema para que ele subisse no palanque do PT.

 

Lula passara raspando para o segundo turno. Contra Fernando Collor, precisava de aliados. A estampa moderada de Ulysses suavizaria sua pecha de radical. O telefonema, porém, não aconteceu. Lula alegou que a imagem de Ulysses e do PMDB estavam associadas à “Nova República” de Sarney. E as urnas consagraram Collor, que passara a campanha inteira chamando Sarney de “ladrão”.

 

Quando se descobriu que a prataria do Planalto havia sumido, Collor foi escorraçado sem que houvesse um PMDB do seu lado para livrá-lo do impeachment. Abre parêntese: hoje, devolvido ao Senado pelo eleitorado de Alagoas, Collor confraterniza-se com Sarney, o ex-ladrão. Fecha parênteses.

 

Na presidência-tampão de Itamar Franco, as forças que ajudaram a livrar a Presidência de Collor foram convidadas a servir ao novo governo, O PT recusou-se. O PMDB aceitou gostosamente. Hoje, Temer e Cia. jactam-se de ter ajudado a por em pé o Plano Real. Nos dois mandatos de FHC, o tucanato serviu-se do PMDB para aprovar o que bem quis no Congresso, inclusive a emenda da reeleição.

 

Nas eleições de 2002, um Lula maduro foi às urnas abraçado a José Sarney, o pretexto que o impedira de responder aos acenos de Ulysses 13 anos antes. Nessa época, o PMDB estava trincado e dividiu suas fichas. A ala de Michel Temer apostou seu capital político no tucano José Serra. Deu Lula.

 

Acomodado na Casa Civil, o companheiro José Dirceu aconselhou Lula a acertar-se com Temer, atraindo para dentro do governo 100% do PMDB. Lula fez ouvidos moucos. Preferiu entregar-se ao varejo das legendas menores. Produziu o mensalão. Reeleito em 2006, Lula deu o braço a torcer. E o grupo de Temer, o PMDB da Câmara, juntou-se à ala de Sarney, o PMDB do Senado. Rolou a festa.

 

Vivo, Charles Darwin diria que o PMDB é a prova de que o ser humano parou de evoluir. Faz o caminho inverso, rumo às cavernas. Já teve a cara de Ulysses. Ficou parecido com Sarney. Ganhou a fisionomia de Orestes Quércia. Passou por Jader Barbalho e revive sua fase Renan Calheiros. É um partido capaz de tudo, menos de disputar a presidência da República.

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