A genealogia do ser

Por João Paulino*

 

Do que os homens precisam para viver? Vivemos da água, dos alimentos, da luz do sol, dos medos, das alegrias, das tristezas, do desejo.

 

Desejo? Ou seria vontade, necessidade? Neste ponto, pode-se definir desejo em duas vertentes: o desejo-possuir atrelado a uma ideia desenvolvida às bases do consumo, e o desejo como necessidade surgindo na vontade do homem de viver. Logo, temos os dois desejos: desejo-possuir e o desejo-vontade-necessidade, sendo este inexorável a nossa existência, pois afinal o que passamos nós se não de uma vontade? Ora nascida no desejo agora libidinoso de nossos pais, mas se confundindo ainda com vontade, já que ambos queriam (precisavam saciar o sentimento que os tomava naquele instante) naquele momento conceber o amor. Vontade ainda, talvez de um ser superior que cansado de tanta monotonia, resolveu criar seu próprio zoológico? Ou até mesmo, uma vontade nossa, íntima, que nos levou a tomar a decisão de virmos para este mundo e enfrentarmos esse desafio. Enfim, depois de um pouco de reflexão, pode-se concluir que foi a partir de um desejo-vontade, que nos encontramos aqui, e como sendo este uma verdade, e desta nos originamos, obrigatoriamente a temos, por toda a vida, ainda que a esqueçamos ou a transfiguremos por muitas vezes em uma mentira, porém ela continuará existindo.

 

Se formos frutos de uma vontade-desejo, em um momento de escolha livre, sendo um ato de entrega ao desejo, este de liberdade e exercício da mesma, logo, somos “filhos da liberdade”, encontrando-a desta forma como nossa “mãe” e como nossa “avó”, e como a lei da vida vamos viver, aprender com nossos “ancestrais” e no futuro sermos “pais”. Concluímos assim, que o homem tem em sua essência a liberdade, e mais do que isso, homem é liberdade. Um ser dotado com todas as ferramentas necessárias para ser/viver livre: olhos para contemplar as mais belas paisagens; uma boca para recitar as mais belas poesias e degustar os diversos sabores; um nariz para apreciar os aromas; ouvidos para apreciar as mais belas melodias; mãos para acariciar a face da pessoa amada ou acariciar a terra que lhe dará o alimento; e ainda, uma consciência: para fazermos tudo isso, refletirmos, criarmos e percebermos como é esplendida a liberdade. É fácil percebermos que cada parte de nós foi construída com a única ideia de sermos livres!

 

Depois de transcorrer, sobre tudo isso, começamos a encontrar resposta para a pergunta: do que os homens precisam para viver? A liberdade.

 

Uma pergunta a priori tola com uma resposta simples, agora continua tendo uma resposta simples, mas deixa de ser tola e ganha grande complexidade questionando a vida e seus “complexos”, sendo ainda mais ampla: questiona sua própria resposta: o que é a liberdade? Há temos? Quanto custa? Engraçado perguntar quanto custa aquilo que somos! Isto nos leva, impreterivelmente a perceber como foi/é deturpada o significado da nossa vida, inclusive nós mesmos e a ideia de sermos livres. Hoje liberdade vem seguida de um preço, não está mais ligada ao desejo-vontade, mas ao desejo-possuir, este que nos aprisiona à preços, à ideia de que somos livres quando temos cada vez mais um elevado poder de consumo, quando possuímos cada vez mais as coisas e quando as pessoas se tornam coisas que podemos possuir. Logo, não temos liberdade, pois acabamos possuídos pelas coisas que acreditamos possuir. Dessa forma enxergamos que fomos enganados; venderam-nos coisas para sermos livres, porém, pouco a pouco estavam nos tornando prisioneiros, com um número de série, sem face, sem consciência, que acredita piamente no que lhes obrigam a acreditar; nos tira a vida!

 

Injustiça sem tamanho com um ser que foi criado para ser livre. Um homem só deve ser prisioneiro da liberdade, já que não pode se libertar de si mesmo.

 

 

 

*João Paulino é acadêmico do curso de Direito (UnP/Mossoró) e militante socialista.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s