Algumas considerações sobre o processo político potiguar

Por Modesto Neto*

Com as urnas computadas e o resultado que se chegou com as eleições de 2014 no Rio Grande do Norte, alguns ensinamentos devem ser tirados do processo eleitoral e a possibilidade de um novo horizonte de lutas se abrirem não está descartada. Algumas constatações são claras. As pesquisas mentem. Acordos e acordões não são suficientes para vencer uma eleição e Henrique Alves do PMDB provou essa tese. O verniz popular e a militância do PT foram basilares para vitória de Robinson Faria do PSD no segundo turno. Robério Paulino e o PSOL se firmam como terceira via e se tornam alternativa política de esquerda para o RN.

A primeira constatação que se pode ter é que as pesquisas eleitorais não traduzem a realidade. Se alguém tinha dúvidas sobre o papel das pesquisas eleitorais, não as tenha mais. Os institutos que se multiplicaram em anos eleitorais apresentam dados que tem duas funções: uma externa e outra interna. Para fora dos partidos as pesquisas visam intencionar e tencionar o eleitor, dentro das coligações que disputam à corrida majoritária a pesquisa serve como panaceia para manter estimulada a militância – mesmo que paga – e cooptar prefeitos, vereadores e lideranças com a impressão de uma vitória e consequentemente as benesses do poder, noutras palavras, cargos e recursos da burocracia estatal.

Todos os institutos de pesquisa que registraram e divulgaram pesquisas eleitorais no Rio Grande do Norte apontaram uma votação inexpressiva do candidato do PSOL, professor Robério Paulino, previa-se algo que variava entre 1% a 3%. Economista por formação e professor da UFRN no Departamento de Políticas Públicas (GPP) Paulino questionou as pesquisas eleitorais e deu inúmeras declarações – em rádios, tevês, jornais e debates – atestando o falso caráter das pesquisas. O resultado das urnas no primeiro turno desmoralizou os institutos de pesquisas, até mesmo o famigerado e alardeado IBOPE que apontou 4% do candidato do PSOL no último levantamento e acabou errando feio. Robério Paulino fez uma campanha com R$ 30 mil (claramente insuficiente para uma campanha ao Governo do Estado) sem se render a lógica do financiamento empresarial e amealhou quase 9% dos votos no Rio Grande do Norte (quase 130 mil votos), somando quase 23% na capital, Natal. Sublinhar que foram gastos mais de R$ 700 mil em contratação de institutos somente no primeiro turno revela ainda o quanto às campanhas políticas vale-se de altos gastos oriundos de relações umbilicais entre políticos e empresários.

Pesquisa IBOPE erra e disputa vai para o segundo turno

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As pesquisas atestavam vitória do deputado Henrique Alves do PMDB para o Governo do Estado já no primeiro turno, o que não se confirmou. A coligação “União pela Mudança”, formada por 18 legendas — totalizando aproximadamente 120 prefeitos e 900 vereadores – espalhados pelos municípios do Rio Grande do Norte conseguiu que o candidato do PMDB terminasse o primeiro turno como primeiro colocado. Henrique obteve 47%, Robinson Faria do PSD somou 43%, enquanto que Arakem Fárias do PSL e Simone Dutra do PSTU juntos não chegaram aos 2%. O que foi decisivo para que a disputa pelo Governo do Estado fosse para o segundo turno foi a considerável votação de Robério Paulino, seus exatos 8,74%.

Sobre as campanhas é preciso apresentar o que foi defendido por cada candidato no primeiro turno para entender o resultado das urnas e a densidade popular de cada projeto, levando em consideração as limitações de cada estrutura partidária e subsequentemente financeira e eleitoral.

Robério Paulino cumpriu um papel central ao apresentar um contraponto às candidaturas dos candidatos tradicionais nos debates e sua votação foi expressiva o suficiente para encaminhar a disputa pelo Governo do Estado para o segundo turno. Sua campanha foi tocada pela juventude universitária e encarnou o ethos das jornadas de junho de 2013 reivindicando a participação popular como alternativa política, negando inclusive, o processo eleitoral como um fim em si mesmo, apontando as insuficiências do atual modelo político. Henrique Alves levantou a tese de que apenas a “união de forças políticas” seria capaz de tirar o Estado do atoleiro e com uma postura paternalista se auto intitulou o “salvador” do RN pelo prestigio que havia acumulado como deputado federal, líder do PMDB e Presidente da Câmara Federal. Robinson Faria teve na então candidata e hoje senadora eleita, Fátima Bezerra do PT, um verniz popular onde ele colou sua imagem e se apresentou para enfrentar o “acordão”. Simone Dutra do PSTU fez uma campanha classista, expos as contradições da velha política, mas não conseguiu estabelecer um maior dialogo com a população. Arakem Farias enfrentou problemas internos no seu pequeno PSL, angariou votos entre setores evangélicos e não se diferenciou nos debates.

No segundo turno Robinson Faria bateu Henrique Alves por 142 mil (quase 10%) votos de diferença numa campanha que somou alta abstenção. Robinson teve 54% contra 45% de Henrique Alves. O PSD como a maioria dos partidos patronais não tem militância, mas um conglomerado de pessoas lotadas em gabinetes amigos que se articulam e fazem campanha para o candidato do partido. Neste sentido a militância do PT foi responsável por tocar a campanha de Robinson e dar ao vice-governador do Governo Rosalba Ciarlini do DEM um tom mais popular. O ex-presidente Luiz Inácio chegou a gravar mensagem de apoio para Robinson Faria, o então “candidato de Lula”. Henrique Alves só venceu no quesito rejeição, chegando a somar 47% na última pesquisa do IBOPE e a atmosfera do “acordão” não soou bem aos ouvidos dos eleitores potiguares.

Ainda sobre o segundo turno o que temos de certo é que uma quantidade considerável de potiguares não se viu representada em nem dos dois projetos apresentados. 17,6% do eleitorado potiguar não viu motivo para sair de casa para votar, enquanto que 15% preferiram ficar entre o voto branco e o nulo. Na Região Central (nas cidades de Afonso Bezerra, Santana do Matos,  Angicos, Lajes, Pedro Avelino, Fernando Pedroza, Pedra Preta e Caiçara do Rio dos Ventos) a média de abstenção chegou aos 22,8% com destaque para a cidade de Pedro Avelino onde 28% das pessoas deram de ombros para os dois candidatos. No Seridó registrou-se 23,2% de abstenções com destaque para Cerro-Corá 27% e Currais Novos 25,9% de abstenções. O cansaço e desdém com o atual modelo político é um fenômeno evidente e inconteste, prova cabal que a democracia burguesa e pseudo representativa vivem uma crise que não é apenas no Rio Grande do Norte ou no Brasil, mas no mundo ocidental. Democracia direta é a cada dia desejo de um maior número de povos e é fruto de reivindicações.

No Rio Grande do Norte o Governo Robinson Faria tem o dia 1º de janeiro de 2015 para começar e com uma bancada minúscula de seis deputados estaduais na AL-RN, é fácil prever que uma maioria fisiológica se formara muito rapidamente. Se o poder tem cheiro de queijo, os deputados estaduais tem o apetite de ratos e logo disputaram entre tapas e mordidas um pedacinho do Estado. Robinson não pode ser entendido como novidade, é uma expressão da velha política, menos venal que Henrique Alves que pode ser sintetizado como a figura que representa o que existe de pior na política brasileira.

Henrique Alves poderá ser ministro do Governo Dilma Rousseff, ou assumir algum posto de comando em uma autarquia ou estatal. Quarenta e quatro anos como deputado federal causou as costas de Henrique a dependência de uma boa poltrona e na sua mão a necessidade biológica de uma caneta com tina – e poder.

A partir de 2015 Henrique vai procurar um “emprego”, Robério Paulino já voltou para a sala de aula na UFRN (seu habitat natural) e se tornou uma opção real para a Prefeitura Municipal de Natal em 2016, Robinson Faria como governador terá duas oposições: uma na Assembleia que pode ser contida com queijo e cargos e outra nas ruas, cujo receituário tem sido spray de pimenta, cassetete e balas de borracha. Espera-se do governador, no mínimo dialogo, mas sabe-se que as manifestações populares não cessaram, nem hoje, nem amanhã.

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