O povo brasileiro não existe

Safatle

Safatle

Por Vladimir Safatle*

 

Fechadas as urnas e proclamado o resultado das últimas eleições, as primeiras palavras foram em direção à reconstrução da união nacional. Afinal, esta eleição teria levado o país a um ponto perigoso no qual parecem aflorar inimizades, preconceitos e outras coisas que gostaríamos de acreditar ultrapassadas. Vamos então esquecer um pouco tudo isso, voltar à vida normal, reintegrar os expulsos do Facebook. Mas, e se isso não for mais possível?

Desde as manifestações de 2013 o discurso da união nacional havia entrado em colapso. Quando massas foram às ruas, descobrimos que alguns gritavam pelo fim da PM enquanto outros queriam a expulsão de médicos cubanos do país. Daí as leituras díspares sobre o sentido ideológico daquela explosão de descontentamento: de classe média golpista nas ruas à situação pré-revolucionária. No entanto, talvez lá havíamos simplesmente descoberto que não haveria mais união, nem mesmo o silêncio complacente de sempre. Placas tectônicas se moveram.

O Brasil que conhecemos até agora acabou. Os amigos perdidos talvez não voltem mais. Por isso, arriscaria dizer que o maior saldo dessas eleições foi mostrar que não somos algo parecido a um povo dotado de identidade coletiva. Não há nada, absolutamente nada que me una a pessoas que tomam a avenida Faria Lima para gritar: “Viva a PM”. Apenas ocupamos o mesmo espaço e tentamos politizar nosso desencontro absoluto, mas não fazemos parte de identidade coletiva alguma. Por isso, nosso encontro político sempre será violento.

Esta divisão não é apenas expressão de um conflito de classe. Desde que Lula ganhou sua primeira eleição, o PSDB tem, em média, 40% dos votos, chegando agora a 48%. Não há 40% de classe média no Brasil. A classe média e a classe pobre sempre estiveram ideologicamente divididas, com algo como um terço de seus eleitores oscilando entre dois polos.

Creio que é importante dizer isso porque as reconciliações nacionais na história brasileira foram sempre reconciliações extorquidas, na qual os mais vulneráveis são obrigados a engolir discursos conciliatórios enquanto as desigualdades e os comportamentos medievais de certas parcelas da população continuam a circular sem culpa. Não há razão alguma para continuar esta compulsão de repetição.

Seria bom para o país que os atores políticos estivessem à altura deste novo cenário.

(*) Safatle é filosofo e professor livre-docente da USP, colunista da Folha de S. Paulo

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s