As confrarias da academia

Por Leonardo Bezerra de Souza*

 

I

É estranho observar o esvair-se de um sonho. Talvez tenham feito isso, com imensa tristeza, os grandes generais e reis ao observarem seus fortes serem tomados pela nação inimiga; de menor tamanho, mas igual intensidade, os pobres agricultores que, avessos a sua vontade, tiveram que deixar sua terra natal. Enfim, seja qual for o sonho, a dor de vê-lo se esvair como fumaça: existe e corta.

Falo disto, por sentir que a cada dia um novo sonho, de um novo cidadão, se esvai. Mais precisamente, o sonho: de um comunista, ou indígena, ou negro, ou minorias, ou pseudo-minorias, ou tantos outros sonhos. Estes sonhos naufragam neste oceano, preenchido pelas águas dos rios: políticos, morais, éticos, humanos e etc. Não há nestas palavras nada de poético que fuja a realidade do século XXI.

II

A possibilidade de salvar sonhos se torna cada segundo menor, pois o universo de des-construtores alcança, a passos largos, um espaço gigantesco. Matando os sonhos dos sonhadores que, durante tantos anos, sonharam ter o direito de sonhar e tinham a coragem de brigar por seus sonhos.

III

Talvez exista nesse texto um pouco de dor. Mas não é a intenção deste espaço amaciar as retinas de nenhum futuro (se existente) leitor, ao contrário, esse pequeno texto tem como caráter incomodar. Incomodar como se incomoda um acadêmico que ao ver sua teoria refutada sente seu céu desabar. É este acadêmico: exemplo e base da mais profunda crítica que se possa ser construída neste século XXI.

A frase folclórica “favas contadas”, muito bem se enquadra na descrição do ser acadêmico que aparece neste início de século. O discurso da ciência salvacionista do século XVI já há muito vem sendo demolido das raias de discussão, é praticamente absurdo haver um cientista ou teórico que opte por dizer que, de fato, ela é salvacionista; isso se tornou démodé. Embora tenha sido uma vitória para as práticas humanas, essa construção crítica não pode ser considerada a extrema unção desse modelo científico estruturante que ainda ampara toda academia. Digo isto, pois ainda que seja retrogrado acreditar em ideias como de: ciência neutra; o caráter apenas benéfico da Ciência e Tecnologia; entre outros, existe um discurso pesado e, em determinados momentos, imperceptível que aponta para o silêncio mortal dos que não poderiam se calar.

É com tristeza que se nota que os acadêmicos ainda se fecham em suas confrarias, caindo no projeto maior de alguém que, por sua vez, nunca quer dizer quem é.

IV

Está sendo formado um arsenal de sociólogos, historiadores, jornalistas e professores, que aprenderam com destaque como se deu a construção da ciência, da cultura e tantas outras áreas. Entretanto, esses mesmos indivíduos, chegaram ao seu trono de ouro, e seu maior gesto de amor à sociedade é convidá-la, aos que possuem as mesmas medalhas, para tomar um chá ou cerveja, esquecendo assim os demais participantes desse sistema social.

Neste estágio de superioridade o acadêmico está acima da sociedade, isto é, esse tipo de acadêmico possui o conhecimento da sociedade dividida, mas o nega; este indivíduo critica o sistema de inclusão e/ou exclusão, mas essa crítica é feita no instante em que ele é servido pela sociedade periférica, ele esquece que enquanto está em sua “honrosa” academia, outra parte da sociedade que desconhece a teoria de seus estudos sociais e antropológicos, continua à mercê de um discurso ainda mais violento contra sua totalidade.

Esse acadêmico nega a necessidade ou a possibilidade de sair de sua caverna. Está lá, sentado entre os mestres debatendo o futuro do menino que vive na periferia pobre da modernidade. Este acadêmico fuma seus cigarros e joga conversa fora, nega o dever de sair do seu universo de conhecimento e ministra aulas sobre o marxismo para os leitores de Marx. Mas nega a necessidade de sair de seu palácio, ele se esconde nas metáforas, teorias e retóricas. Esse ser acaba por abandonar a alteridade tão idealizada.

Nesta altura, não sabemos mais qual é a régua mais adequada para medir tais níveis de agressão, se é mais violentado este acadêmico ou o individuo que foi impossibilitado de alcançar a academia.

V

Existe ainda, outra espécie importante neste jogo de corromper e ser corrompido, falo do mesmo acadêmico. No entanto, agora falo de um caso de menor gravidade, porém, mais agressivo, aquele acadêmico que luta em favor de todos.

Existe na academia um humano que luta em favor de todos os grupos, o que é de causar estranheza profunda, pois, é complicado analisar um individuo que lute por ideias totalmente distintas.

Essa classe de pensadores é ainda subdividida entre os que lutam por todos e os que não lutam por ninguém (apenas demonstram dados). Esses casos são bem mais agressivos, pois não sustentam nem o discurso que explanam.

Esses indivíduos são limitados pelos dados, pela distorção do termo utópico, que nem mesmo eles conseguem definir com proeminência, pois se atém mais as possibilidades do concreto, do que aos sonhos de uma classe menos favorecida por um sistema sócio-político, aliás, classificam como sonhos a possibilidade de transformação. Esses indivíduos, ao contrário do que alegam, não defendem a todos nem a ninguém, eles defendem a uns e outros não. Não que eles tenham consciência disto, mas são vítimas de uma fonte defensora do discurso dominador.

Esses acadêmicos estão limitados pelo discurso dominante e só defendem a proposta da possibilidade concreta, essa é a base do “defendo a todos” ou “não defendo ninguém”. Por exemplo, se necessitamos de um projeto que beneficie a mobilidade urbana, jamais será pensado em zerar a tarifa paga aos ônibus (ver: caso da revolta do busão 2013, apelidado de Junho), reformulando, até pode ser pensado, mas de imediato será descartado, e o dialogo passa a ser sobre quão mais baixa pode ficar a tarifa. Pois, esse modelo de acadêmico descartará a possibilidade de transformação, não ciente da impossibilidade, mas sim, do que ele vem a chamar de utópico – há então a distorção do que é utopia e do que é impossível, não vem ao caso desta análise – porque se torna “utópico” fronte ao empresariado e a classe dominante o ato de zerar a tarifa. Ainda neste sentido, no debate por mobilidade urbana esse indivíduo, dificilmente irá ser a favor de um projeto inédito para sua cidade, ele normalmente se baseará no projeto de outra entidade. Exemplo disto é a comparação entre a cidade de Natal/RN e Curitiba/PR, a primeira possui um histórico honroso de lutas por “passe-livre” a segunda o reconhecido sistema de transporte público, sempre que houver debates em torno dos transportes coletivos Curitiba será lembrada como modelo a ser seguido, omitindo aquilo que seria mais desejado e prudente, que é a montagem de um projeto próprio de benefício para comunidade de Natal. Não se trata de dizer que Curitiba não tem um bom projeto, mas sim, de dizer que Natal precisa de um projeto próprio e pode tê-lo. Eis então o maior medo do grupo dominante: que a sociedade mobilizada e mobilizadora organize um projeto próprio, pois esse projeto tende a ser como a cidade, no sentido apresentado, tende a haver um projeto que beneficie os oprimidos (classe mobilizadora), e que automaticamente reduza ou condene o lucro do empresariado. Muito provavelmente esse modelo de acadêmico optará por estar ao lado opressor/dominador, mesmo que inconsciente disso. Assim, defenderá o que o opressor deseja: um ideal que não fuja ao conveniente e as medidas que eles possuem de combate.

VI

A diferença de um modelo de acadêmico para o outro, é que o primeiro tem ciência do papel que exerce, se acomoda por medo ou por um projeto obscurecido pelo seu currículo e suas pretensões; o segundo muitas vezes não possui ciência da armadilha em que foi colocado pelo sistema opressor/dominador, que sempre opera silenciosamente.

VII

Não se trata de, aqui nesta singela crítica, construir uma Intentona Comunista, está longe de nascer o próximo Luis Carlos Prestes (1898 – 1990), mas sim de evitar que se formem as “confrarias de pescadores” que Rubem Alves (1933 – 2014) alertou se formarem.

*Leonardo Bezerra é acadêmico de Comunicação Social (UFRN) e membro do Coletivo Darcy Ribeiro.

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